quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Sítio do Picapau Amarelo - vários artistas (1977).

Por que, numa vasta coleção como a minha, escolhi justo falar de um disco para o público infantil – e que não possui nenhuma relação com o pop ou o rock? Simples: Porque este disco traz o que de melhor temos na sonoridade de nossa MPB – gênero que predominou na TV e nas rádios dos anos 70 aqui no Brasil. E você simplesmente não vai encontrar nada de mais sublime numa trilha infanto-juvenil como o material desta obra.

Trazendo um naipe de compositores e intérpretes de primeira grandeza – além do brilhante trabalho de arranjos de Dory Caymmi – esta série baseada na obra do eterno Monteiro Lobato - se tornou atemporal e inesquecível para quem pôde acompanhar pelo menos sua fase de ouro (1977-1980).

Vamos então faixa por faixa:

A1) Narizinho: Composição da consagrada dupla Ivan Lins / Vitor Martins, traz um riff lindo de piano e é uma das mais marcantes do disco descrevendo a personagem de forma lúdica (assim como temos também em “Emília”). Lucinha Lins – que à época já atuava como backing-vocal na banda de Ivan - vem em doce e marcante interpretação e entrega sua voz afinada de forma pungente. Letra massa de Vitor Martins, cujo refrão fica grudado no ouvido! Maravilhosa.

A2) Ploquet Pluft Nhoque (Jaboticaba): Um rico arranjo vocal com percussão, violão e trabalho esmerado de sopro. Primeira participação do grupo PAPO DE ANJO no disco e outra de Dory Caymmi com  Paulo César Pinheiro. 

A3) Peixe: A mais “estranha” do álbum. Os Doces Bárbaros – um grupo reunindo as 4 maiores figuras da música baiana - em 1976 aparecem aqui numa gravação ao vivo com entonações  e inflexões vocais que lembra as loucuras do Tropicalismo (!?).

A4) Saci: Bastante tocada durante os episódios. Aqui, a banda PAPO DE ANJO vem em arranjo vocal sem letra, apenas melodia. A percussão tem papel importante numa harmonia que remete a temas rurais. O violão pontua toda a melodia e carrega, em sua essência, um riff danado de bom. Arranjo de Dory.

A5) Visconde De Sabugosa: João Bosco / Aldir Blanc em grande forma. João já estava consolidado por esta época e sua parceria com Aldir se tornou célebre na MPB. Aqui a levada do violão e pandeiro são exuberantes. Destaque para a interpretação veloz de João e para outra letra que gruda na mente.

A6) Dona Benta: Outra composição da dupla Ivan Lins / Vitor Martins, com linda harmonia – remete à própria figura da personagem, num misto de tranquilidade e acolhimento. O intérprete José Luis não teve papel muito relevante em nossa música, mas executa com maestria os vocais. Bem relaxante e prova da capacidade imensa de letrista que sempre foi Vitor Martins.

A7) Sítio Do Picapau Amarelo: Inesquecível canção-tema de um Gilberto Gil inspirado, este tema ficou gravado na mente de crianças e adultos por toda a segunda metade da década de 70! Com melodia assobiável e levada leve, o arranjo vem exuberante e envolvente do início ao fim.

B1) Pedrinho: Fabulosa composição de Dory Caymmi e  Paulo César Pinheiro. Com linda interpretação e execução da banda AQUARIUS – ver link ao final da resenha - que atua até hoje. 

B2) Arraial Dos Tucanos: Ronaldo Malta interpreta com paixão uma balada típica dos trovadores –me recordou “Ponteio” de Edu Lobo - com orquestração e arranjo que crescem junto à percussão, utilizando outros instrumentos do folclore nordestino como bumbo e sanfona . Composição de Geraldo Azevedo e Carlos Fernando.

B3) Tia Nastácia: Aqui temos mais um membro dos Caymmi, desta vez o mestre Dorival numa entrega vocal com sua verve e levada de violão típico do cancioneiro nordestino - e de seu próprio estilo.

B4) Passaredo: Outro grande sucesso atemporal do disco e um dos grandes sucessos de sempre do MPB4, esta tem letra instigante e inteligente, ritmada e cheia de nuances. “Bico calado, toma cuidado, que o homem vem aí...” é uma frase que ficou registrada como marca nesta composição brilhante de Chico Buarque / Francis Hime. A orquestração pontuando o piano é sublime.

B5) Emília: Sérgio Ricardo, que ficou conhecido por uma das maiores vaias em festivais (no III Festival da Canção, em 1967)  assim como Lucinha Lins (no Mpb Shell de 1981) – dá vida à eterna boneca numa interpretação ora vigorosa ora preguiçosa.  A levada de violão varia - assim como o autor faz com seu canto - descrevendo a personagem de forma toda peculiar . A lias, a letra cai como uma luva nesta composição do próprio artista.

B6) Tio Barnabé: Retornamos aqui à elementos e arranjos afro para homenagear mais uma figura emblemática do Sítio, com excelente trabalho de violão - que começa dedilhado e depois explode em ritmo batida, percussão, além do acompanhamento de palmas. Sons de pássaros emolduram a curta canção. Composição de JardsMacalé e Marlui Miranda. Interpretação dos autores.

Não possui esta obra? Adquira para ontem e seja criança novamente...Para maiores detalhes, vale a pena a leitura / visualização dos links abaixo:

https://memoriaglobo.globo.com/entretenimento/infantojuvenil/sitio-do-picapau-amarelo-1a-versao/trilha-sonora/

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(1977)

https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADtio_do_Picapau_Amarelo_(%C3%A1lbum_de_1977)


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Rumble Fish Original Soundtrack - Stewart Copeland.


                Este é o filme a que mais vezes assisti. Seja no cinema, em vhs ou mesmo em dvd. O que me encanta nesta película são vários aspectos: A amizade entre irmãos oriundos de uma família pobre e sem horizontes. A fúria da juventude, com suas dúvidas, medos, seu sentimento de não pertencimento à sociedade (tema igualmente proposto em The Outsiders  também da escritora Susan E. Hinton e filmada por Francis Coppola no mesmo ano). A passagem inevitável do tempo. O que já foi e não volta mais – a fama do Motorcycle Boy (interpretado por Mickey Rourke) em cuja sombra se espelha o personagem de seu irmão. A repressão, na figura do policial que espera o momento do acerto de contas. O drama com atípico final como não se deve esperar de filmes americanos. E minha própria estória de vida, na época (1986) com tantas descobertas e novidades (salve galera do cine Estação Botafogo!). Memórias... 
              
 
 
               Coppola utilizou elementos do expressionismo, do gênero policial noir norte-americano e da escola francesa dos anos 60 para criar um belo retrato da sociedade norte-americana na cidade abafada de Tulsa, Oklahoma. Baseou-se quase integralmente no livro homônimo de 1975, da jovem escritora citada. Coppola estava em baixa neste período, com seu Zoetrope Studios em dificuldades financeiras. Obteve, porém, críticas positivas (como também várias negativas). Já li em algum canto que Coppola o considera seu melhor filme.

                Inicialmente o diretor visualizava um experimento rítmico para complementar as imagens. Ao começar a trabalhar com Stewart Copeland ele deixou o ex-The Police manejar os tempos da trilha, dando-se conta da grandiosidade do baterista como percussionista. Copeland gravou sons ao vivo na cidade e utilizou-os mixando com a trilha composta por ele utilizando-se de um software/hardware chamado Musync que modificou o tempo para sincronizar as composições com a ação do filme. Todas as composições são dele, exceto Don´t box me in que foi composta com o vocalista Stan Ridgway – que canta na faixa título. O personagem Rusty James (interpretado por Matt Dillon) acabou por ser tema também de uma canção dos Manic Street Preachers, além da faixa “Hey Rusty” presente no  álbum “Mainstream” dos Commotions de Lloyd Cole em 1987.


 
                O resultado soa como uma das mais perfeitas trilhas dos últimos 30 anos no cinema, um casamento único. O som marca o filme tanto quanto as alusões ao tempo. Minimalista em vários momentos, jazzista em outros, surreal , com utilização contida de guitarras, piano, incursão de vários objetos incorporados à harmonia...enfim, ouvir este disco é lembrar de cenas, diálogos, olhares, sombras - é mergulhar na beleza da sétima arte como um todo! A sutileza e riqueza do trabalho é digno de louvor – foi indicado ao Golden Globe (que acabou não levando) de melhor trilha sonora daquele ano. Veja o filme, reveja e pense seriamente em adquirir esta obra prima. A minha cópia é americana da extinta loja Modern Sound (Copacabana,RJ) e traz na capa a arte do cartaz europeu do filme. Saudações aos audiófilos e cinéfilos!    


                 A All Music Guide (AllMusic) deu 4 ½ (em 5 estrelas) a este álbum.  Foto1: Cartaz americano do filme (Internet), Foto2: Cartaz europeu do filme (en.wikipedia.org), Foto3: coleção pessoal, Foto4: loja Modern Sound (Internet).

ENGLISH VERSION

                This is the movie that more often I´ve watched. In cinema, on vhs or dvd format. What I love in this film are various aspects: the friendship between brothers from a poor family and without horizons. The fury of the youth, with his doubts, fears, his feeling of not belonging to the society (theme also proposed in The Outsiders also by author Susan e. Hinton and filmed by Francis Coppola in 1983). The inevitable passage of time. What's gone and will not coming back - the fame of the Motorcycle Boy (played by Mickey Rourke) in whose shadow mirrors the character of his brother ... The repression, in the figure of the police officer who expects the moment of reckoning. The atypical drama end as one should not expect from American movies . My own story of life at the time (1986) with so many discoveries and innovations. Memories...

                Coppola used elements of expressionism, of the american film-noir and the French school of 60´s to create a beautiful portrait of American society in the city drowned out of Tulsa, Oklahoma. It was based almost entirely on the 1975 book of the same name by the young writer. Coppola was low during this period, with his Zoetrope Studios in financial difficulties. Obtained, however, positive reviews (as well as several negative). Coppola thinks this as his best and perfect film.

                Initially the Director visualized a rhythmic experiment to supplement the images. Start working  with Stewart Copeland he left the former The Police handle the trail, realizing the greatness of the drummer as a percussionist. Copeland recorded live sounds in the city and used them mixing with the score composed by him managing a software/hardware called Musync that modified time to synchronize the compositions with the action of the film. All the compositions are his except Don ´ t box me in which was composed with vocalist Stan Ridgway – who sings on the title track. The character Rusty James (played by Matt Dillon) turned out to be a theme in a song of Manic Street Preachers and also on the track "Hey Rusty" from album "Mainstream" by the Commotions and Lloyd Cole in 1987.

                The result sounds like one of the most perfect trails for the last 30 years at the movies, a unique marriage. The sound fits the images as much as the allusions to time. Minimalist at various times, jazz in other, surreal, with constraint use of guitars, piano, incursion of several embedded objects to the beat ... well, listening to this work is to remind scenes, dialogues, glances, shadows…is diving into the beauty of the seventh art as a whole. The subtlety and richness of the work is worthy of praise – was indicated to the Golden Globe (which ended up not taking) for best soundtrack of that year. See the film, review it and think seriously purchasing this masterpiece. My copy is an american one from  the defunct store Modern Sound (Rio de Janeiro) and brings on the cover the art of the European movie poster. Greetings to audiophiles and cinephiles!

                 Allmusic (AllMusic guide) gave 4 .5 (5 stars) to this album.  Photo1: American movie poster (Internet), Photo2: European movie poster (en.wikipedia.org), Photo3: personal collection, Photo4:  Modern Sound store (Internet).

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Melhores capas em vinil (Best album covers in my collection).

Capas podem ser a razão de se comprar um vinil mesmo que não se goste tanto do conteúdo musical. Considero o vinil a maior obra cultural do século XX, pois engloba três obras em uma: música, arte gráfica e letras.

A partir dos anos 70 houve uma reviravolta na maneira como se dispunha o vinil no mercado. Isto impulsionou a cultura pop da época, com ênfase, é claro, no rock. Artistas ganharam notoriedade e bandas fizeram seu nome também por conta de uma concepção do trabalho como um todo.

Desde os Beatles (Sgt. Pepper´s, 67) no final dos anos 60 até as bandas do movimento Britpop nos anos 90 (Suede, 93) as capas se tornaram extensão da música e venderam um produto.

Muitos gêneros se aproveitaram disto, como o progressivo. Outros, procuraram provocar - como a famosa capa de Andy Warhol para o Velvet Underground (da banana) ou o “Stickyfingers” dos Stones. Há vasto material na internet e livros foram escritos abordando especificamente este tema.

Listo aqui as minhas 15 capas mais relevantes da coleção. As observações e fotos foram retiradas de conteúdo da wikipedia: https://en.wikipedia.org/wiki/Main_Page. Uma curiosidade: quase metade é do ano de 1984. Seus comentários e observações são bem-vindos. Saudações.

(english)

Covers can be the reason to buy vinyl even if you don't like the music content as much. I consider vinyl the greatest cultural work of the 20th century, as it encompasses three works in one: music, graphic art and lyrics.

From the 70s onwards, there was a turnaround in the way vinyl was available on the market. This boosted pop culture at the time, with an emphasis, of course, on rock. Artists gained notoriety and bands made their name also because of a conception of the work as a whole.

From the Beatles (“Sgt. Pepper's”, 1967) in the late 60's totheBritpopbands in the 90's (“Suede”, 1993) the covers becamemusicextensionsandsold a product.

Many genres took advantage of this, such as theprogressivegenre. Others tried to provoke like Andy Warhol's famous cover for Velvet Underground (the banana cover) ortheRolling Stones' “Stickyfingers”. There is a vastmaterialonthe internet and books have been written specifically addressing this topic.

Here I list my 15 most relevant covers from the collection. Observations taken from Wikipédia Page on the net: https://en.wikipedia.org/wiki/Main_Page. Just a curiosity: almost half of the list came from 1984 year. Your comments and observations are welcome. Greetings.

Melhores artes em capas:

OMD (Architecture & Morality, 81): Capa com recorte onde se vislumbra parte do encarte. (The artwork was produced by Peter Saville and BrettWickens);

REM (Reckoning, 84): Projeto a partir de um esboço do vocalista Michael Stipe e finalizada por Howard Finster. (For the cover of Reckoning, Stipe drew a picture of a two-headed snake, which hethen gave to artist Howard Finster to fill in as a painting); 

MARVIN GAYE (I WantYou, 76): A partir de uma obra de 71 de nome “pintura do barraco açucarado” de Ernie Barnes. (The original The Sugar Shack painting, by neo-mannerist artist Ernie Barnes in 1971;
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/I_Want_You_(Marvin_Gaye_album)#/media/File:Marvin-gaye-i-want-you.jpg

DONNY HATHAWAY (same, 71): Para seu segundo trabalho solo, foi utilizada a arte de Loring Eutemey (for his second solo album, the art was made by Loring Eutemey);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/Donny_Hathaway_(album)#/media/File:Donny_Hathaway_album.jpg

M83 (Dead cities, red seas & lost ghosts, 03): A arte é de Justine Kurland de nome “Snow Angels” (art by Justine Kurland named “Snow Angels”);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/Dead_Cities,_Red_Seas_%26_Lost_Ghosts#/media/File:M83-Dead_Cities,_Red_Seas_&_Lost_Ghosts.jpg

PINK FLOYD (Pigs, 77): Uma das mais famosas capas dos anos 70, possui uma história toda peculiar e idéia original de Roger Waters. (German company Ballon Fabrik - who had previously constructed Zeppelin airships - and Australian artist Jeffrey Shaw;

FELT (The Splendour of Fear, 84): Arte retirada do poster do filme Chelsea Girls (cover art taken from the poster for the 1966 Andy Warhol / Paul Morrissey film Chelsea Girls, designed by Alan Aldridge).
capa:  https://en.wikipedia.org/wiki/The_Splendour_of_Fear#/media/File:Splendorfeltalbum.jpg

FELT (The Strange Idols Pattern and other short stories, 84): Sem informação (no information about);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/The_Strange_Idols_Pattern_and_Other_Short_Stories#/media/File:Strangefeltalbum.jpg 

SILVIO RODRIGUEZ (Unicornio,82): A arte é de Constante Diego (paint by Constante Diego);
capa: 
https://www.discogs.com/Silvio-Rodr%C3%ADguez-Unicornio/master/304606

AZTEC CAMERA (Knife, 84): Foto tirada do clip da canção “Still on fire” (cover taken out of clip from “Still on fire”);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/Knife_(album)#/media/File:Knife_aztec_camera.jpg

GENESIS (In Concert, 77): Este álbum, de ao vivo nada possui. É uma coletânea mal mixada de faixas de alguns álbuns do grupo e esta edição somente saiu no Brasil. A capa é de autoria de A.H.Nitzche. (Brazilian only edition. Art by A.H.Nitzche);
capa: https://www.discogs.com/pt_BR/Genesis-In-Concert/release/3928069/image/SW1hZ2U6NzYzNzQxNA==

EBTG (Eden, 84): desenho feito pela ex-companheira de Tracey na banda Marine Girls, Jane Fox. (cover design by ex- Marine Girls member Jane Fox);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/Eden_(Everything_but_the_Girl_album)#/media/File:Everything_But_the_Girl_Eden.jpg

DEAD CAN DANCE (same, 84): A foto é uma arte da Papua Nova Guiné (photo of a piece of artwork from Papua New Guinea);
capa: https://en.wikipedia.org/wiki/Dead_Can_Dance_(album)#/media/File:Dead_Can_Dance_album.jpg

EMERSON, LAKE & PALMER (Brain salad surgery, 73): Concepção a partir de portfolios de H. R.Giger, o criador do monstro “Alien” (made by H. R.Giger, the man responsible for the "Alien" monster).









terça-feira, 27 de outubro de 2020

A música pop perfeita parte 4: Lloyd Cole & the Commotions - Rattlesnakes (1983).

Uma das estréias pop (eu disse pop , e não rock) mais perfeitas da história está neste disco. Os escoceses liderados pelo barítono, galã e estudante de filosofia Lloyd Cole colocaram 10 músicas perfeitas num único disco.

A capa inglesa (esquerda) é muito mais chique – de autoria do fotógrafo Robert Farber – e me recorda os chalés da série Twin Peaks. A capa brasileira é a mesma que a americana, com a banda tocando num ambiente escuro. Atingiu o 13 lugar na parada britânica. Mas marcou muito mais que muito “top ten” por aí...

Bebendo na fonte de Dylan, Cole – autor de grande parte das canções sozinho – reuniu nos Commotions um time de caras que realmente se entregaram aos arranjos antes que aos egos, sublinhando estes com uma leveza e uma sensibilidade magistrais. Destaque para o guitarrista Neil Clark. Para falar do trabalho, há que se dar ênfase nas letras – afinal Cole chegava como um exímio letrista contemporâneo e seu escrito tem o perfil de crônicas modernas à dois. Como não tenho no encarte (nem na versão brasileira e nem na inglesa) as mesmas, prefiro comentar mais o trabalho dando uma idéia geral de cada faixa. Mas praticamente todas estão centradas no amor e seus desdobramentos segundo o próprio autor.

  1. Perfect skin: Arranca a todo com a banda entrando na cola do riff de guitarra e Cole desfiando sua admiração pela figura feminina de pele perfeita. Rápida, deliciosa e febril como uma paixão de verão. Primeiro single do trabalho.
  2. SpeedBoat: É baseada num livro e possui sua base climática nos teclados, dando a languidez de um passeio mesmo por um rio. De um arranjo bem trabalhado, dá uma idéia de como a banda consegue tirar o máximo de criatividade com um mínimo de harmonias.
  3. Rattlesnakes: A entrada pomposa com cordas e violão pontua esta canção rápida que dá nome à obra e mostra a capacidade trovadora Dylanesca interpretativa de Cole, com suas tiradas tipo "(...) tudo o que ela precisa é terapia" ou ainda "(...) o amor é um desapontamento cinza". O clipe foi filmado no mesmo local onde a banda posou para as fotos do LP, no caso duas distintas.
  4. Down On Mission Street: Também possui guitarra marcante e arranjo de cordas num crescendo ao final. É mais comportada, introspectiva, porém, também bela. Me parece que a banda tirou alguns elementos da música norte-americana para esta composição.
  5. Forest Fire: É, em minha visão, uma das dez maiores canções do pop inglês dos anos 80. Climática, jovem, poderia ser tema de qualquer filme teenage dos 80´s como “Saint Elmo´s fire” ou “Preety in Pink”. De uma grande carga poética, a canção vai num crescendo até o teclado ditar as regras num final magistral. Foi o segundo single do disco.
  6. Charlotte Street: É mais densa, mais triste. O teclado tem vital importância aqui.
  7. 2cv: Arrastada, americana, sem bateria...a menos marcante do álbum. Cole como sempre ácido: "Nós simplesmente estamos perdendo tempo precioso" em mais uma letra de relações mal resolvidas.
  8. Four Flights Up : Também é rápida, lembrando a estrutura de composição típica do R.E.M.
  9. Patience: Traz um momento de delicadeza, pontuando uma relação a dois rompida, com um backing feminino bem sacado, que por vezes chega a conduzir Cole. A banda novamente cresce nos arranjos. O líder se arrisca – e bem – nos falsetes.
  10. Are you ready to be heartbroken: Fecha o disco com chave de ouro e é minha preferida. Simples, mas gruda no ouvido. Aqui o acordeon diz “presente” para dar cores a uma letra que destaca a dor como parte inerente do amor - como nos versos: “Fazendo seus amigos se sentirem culpados(...)” e “ Você está pronto para sangrar? ” Uma pequena obra-prima - como a linda “Down in the Seine” do Style Council – que usa do acordeon para se revestir de Europa.
Prontos para a comoção dos sentidos? Para sangrar a sensibilidade? Na realidade entro num estado de hemorragia profunda com este disco (rs). E que dor prazerosa...

Aqui deixo registrado duas boas resenhas deste mesmo disco que encontrei na Net:

http://www.aescotilha.com.br/musica/vitrola/lloyd-cole-and-the-commotions/
http://www.botequimdeideias.com.br/flogase/disco-pop-perdidos-11-lloyd-cole-the-commotions-rattlesnakes/

Resenha por: Alvaro Az.

Fotos: discos e encarte (coleção particular).

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Dez discos preferidos da MPB por Richard Valenta.

Seguem os dez álbuns preferidos da MPB de meu amigo Richard Valenta, enviadas diretamente da Alemanha.

1 – Secos e Molhados – Debut
2 – Oswaldo Montenegro – Entre uma balada e um blues
3 – Mutantes – Tudo foi feito pelo sol
4 – Pepeu Gomes – Geração do som
5 – Cazuza – Ideologia
6 – 14 Bis – Debut
7 – Zé Ramalho – Debut
8 – Milton e Borges – Clube da Esquina
9 – Beto Guedes – Contos da lua vaga

10 – Flávio Venturini – O Andarilho

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Meus dez discos preferidos da MPB.

Este post não busca ser influenciador nem muito menos ordenar uma lista em preferência.

Aqui vai minha relação dos 10 maiores discos de MPB.
Obviamente, a escolha não é por critérios de produção, importância na
nossa música ou mesmo relevância a nível de definição de estilos, etc.
Vai mesmo do lado sentimental que estes discos ou músicas significam
para mim.

Comentários sempre bem vindos.

  • O último pau-de-arara - Fagner (1973)
  • Alucinação - Belchior (1976)
  • Maravilhas contemporâneas - Luís Melodia (1976)
  • Clube da esquina - Lô Borges & Milton Nascimento (1972)
  • Oswaldo Montenegro (1980)
  • Galos de briga - João Bosco (1976)
  • Amar - Simone (1981)
  • Zé Ramalho (1978)
  • Milagre dos peixes - Milton Nascimento (1973)
  • Matita Perê - Tom Jobim (1973)

Aproveito para indicar a leitura desta resenha de Mauro Ferreira no canal do G1, onde ele fala um pouco sobre o álbum "Matita Perê" de Jobim.


https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2020/05/16/discos-para-descobrir-em-casa-matita-pere-tom-jobim-1973.ghtml

quarta-feira, 27 de maio de 2020

A música pop perfeita parte 3: The Carpenters - Horizon (1975).

Demorei a curtir a música dos Carpenters, muito porque meu irmão mais velho ouvia constantemente e meu barato era o Rock à época, e não o pop. Também demorei a perceber o quão vistoso era o grave de Karen, uma cantora completa, uma estrela, uma das vozes femininas mais marcantes da música moderna do século XX.

Horizon é o sexto álbum de estúdio da banda e para mim, o petardo pop perfeito da dupla.


Se Richard apenas tivesse escrito "Aurora / Eventide" - músicas que abrem e fecham o disco, já poderia levar um prêmio especial. Estas pequenas composições carregam uma aura de divindade / angelitude extremas. Não são deste mundo. Sobrenatural a harmonia e interpretação de Karen, já valeriam o disco.

"Please Mr. Postman" alcançou o topo da parada de singles da US Billboard, se tornando um mega sucesso mundial, assim como "Happy" - ambas composições de terceiros e a estrondosa "Only Yesterday" com uma inflexão grave magnífica (!) de Karen logo no primeiro verso. Esta última alcançou o quarto lugar da Billboard. Todas as três foram responsáveis pelo sucesso do álbum em vários países, incluindo o Brasil.

"Desperado", uma releitura da dupla dos Eagles, poderia bem estar na trilha sonora de obras como "Paris, Texas" de WinWenders ao lado dos instrumentais de Ry Cooder, pois a harmonia com gaita de Tommy Morgan abrindo e fechando a faixa dentro do belo arranjo e o tema da letra remetem a distanciamento e drama. Uma pérola.

Outra que merece destaque no álbum é "Solitaire" - terceiro single do´álbum. Com magnífica performance de Karen - redundância né? - e mais um belíssimo arranjo do duo. 


"I can´t dream, can´t I" e "Love me for what I am" são outras duas releituras mais calmas na interpretação e com arranjo mais modesto, digamos assim. Destaque para o solo brevíssimo de Tony Peluso na guitarra nesta última.

Já "Goodbye and I love you" é uma gostosua com os arranjos vocais típicos da dupla, numa bela composição de Richard com o parceiro John Bettis.

Este álbum, no geral, é bem reflexivo, dentro da característica dramática e melancólica presente na voz de Karen. A revista Rolling Stone, na época, aclamou a obra como a mais sofisticada do duo até então. No Japão e Inglaterra, o petardo chegou ao 1° lugar da parada.


Se vc quiser começar a se aprofundar na música da dupla, comece por este álbum. Boa viagem...
Créditos: foto 1 (discogs.com), foto 2 (pinterest.com), foto 3 (myspace.com/thecarpentersofficial). Review por Alvaro Az.





sábado, 3 de agosto de 2019

Visita à loja Garimpo Discos (RJ).

Neste começo de agosto estive na loja mais bacana e nova do Rio de Janeiro para uma visita.
No coração de Copacabana - desde novembro de 2018 - se encontra um acervo fantástico de compactos, vinis, dvds, cds, singles e outros bichos.

A loja conta hoje com o acervo inteiro da extinta Satisfaction Discos, que teve seu último endereço no Centro, além de outros acervos incorporados pertencentes a pessoas que trabalharam na noite do Rio como DJ´s e vendedores de lojas renomadas. O Sérgio é o responsável por este imenso playground de alegrias para os amantes do vinil.




Aqui você encontra um ambiente espaçoso com mesas e cadeiras - como se fosse num pub - para melhor apreciar suas escolhas e seus sons.

Como destaque deixo registrado que aqueles que quiserem mandar um som nas pick-ups estão convidados,  pois existe uma cabine à parte apenas para este fim.

As prateleiras são muito espaçosas, sem aquele aperto de 700.000 discos arrochados que acabam empenando ou dificultando a manipulação por parte do cliente. Também as instalações como banheiro e iluminação estão super adequadas, contribuindo para o conforto geral.


Quanto às bolachas, a seção de Jazz é bastante vasta, assim como a
de Black Music. Porém, o Pop e o Rock - obviamente - também não
deixam a desejar, com todas as vertentes presentes. Importados fazem a festa, inclusive com singles e Maxi´s à vontade. Raridades nacionais também dizem presente. Itens de época - como "Sticky Fingers" dos Stones e lacrados também temos por aqui...

Enfim, uma loja que veio para ficar, preenchendo o espaço deixado pela Modern Sound, Billboard e outras que fecharam na zona Sul do Rio.

Vida longa à Garimpo Discos e vamos à garimpagem colegas! Fui!

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Low - David Bowie (1977).

Taí. O melhor álbum de Bowie (o preferido do cantor) na primeira prensagem brasileira de 1977 pela RCA. Coisa linda (NM). Eu tinha me desfeito de minha cópia em cd – erro quase imperdoável – mas agora me redimo ao adquirir o LP. Isto não é bem uma resenha, mas um bate-papo sobre este grande disco. Me lembro de não “sacar” muito este disco quando o escutei pela primeira vez. Não soava pop, não soava rock, não soava a Bowie. Soava a música de elevador, descartável, difícil. Num certo sentido é isso mesmo, pois gerou um único single. Com o tempo e minha mudança de gosto musical (passei a curtir Kraftwerk, bandas instrumentais [ou quase] do selo 4AD, trilhas) este álbum passa a fazer sentido para os meus ouvidos agora mais ecléticos.

Confesso que o que ajudou a forjar minha simpatia por “Low” foi a íntima relação entre o som e a cortina de ferro que durou até a queda do muro de Berlim em 89. O álbum teve dois locais de concepção: O Château d'Hérouville na França e o Hansa Studios em Berlim - a cidade que dividiu o mundo em dois durante quase 3 décadas (Bowie passou a morar no bairro de Kreuzberg em companhia de Iggy Pop para desintoxicar-se). Tenho uma queda pelo Leste Europeu socialista, escuro, frio, enigmático, sei lá... Uma sensação parecida eu tive quando escutei a discografia do Ultravox - que também me remeteu à mesma concepção. Totalitarismo.

Sem ser fã de Bowie, me identifico com este disco por justamente sair de seu estilo. O disco parece uma bagunça sonora, mas consegue uma identidade pela participação de Brian Eno – que também teve papel fundamental na mudança sonora do U2 -e a ousadia forçada numa fase do cantor mergulhado no vício e buscando se apartar da realidade ocidental. No lado um destaco “Always crashing in the same car” e “A new career in a new town”. O lado dois...bem....é uma coisa. Eu diria que fica entre os 5 lados fundamentais da segunda metade da década, musicalmente em importância. É um marco na música pop, pois quebrou com tudo o que se esperava do Camaleão até aquele ponto de sua carreira. Sua sonoridade abriu as portas para o Techno-pop, o gótico - influenciando bandas como o Joy Division (cujo primeiro nome Warsaw foi retirado da faixa “Warsawa”) e todo o pós-punk.

A capa – sempre um must em se tratando de Bowie, remete ao filme de 1976 “O homem que caiu na Terra”, estrelando o próprio – e que vale a pena ser visto!

Nos últimos anos, duas edições reavivaram este disco: As edições “Low Live” com registros ao vivo das canções e “Low sessions” com as sessões de gravação do mesmo. Também foi editado no Brasil o livro homônimo do escritor Hugo Wilcken pela editora Cobogó (o qual pretendo adquirir) que fala tudo o que se precisa saber sobre a feitura do álbum.
Enfim, um disco para escutar num dia nublado, introspectivo. Para sair deste mundo louco. Bowie vive...

Créditos das fotos: 1- coleção particular / 2- site rockontro.org / 3- internet. [Quem souber o crédito correto por favor informe]. Segue uma relação de sites que falam sobre o álbum com algumas referências (vale a pena a leitura):


https://www.revistacontinente.com.br/secoes/resenha/livro-do-disco---low---de-david-bowie-

https://pt.wikipedia.org/wiki/Low_(%C3%A1lbum_de_David_Bowie)

https://www.musicontherun.net/2017/11/discos-para-historia-low-david-bowie-1977.html

https://rateyourmusic.com/list/CelticTiger/100-best-albums-of-70s/ (“Low” at 62nd place).

https://digitaldreamdoor.com/pages/best_albums70s.html (“Low” at 44th place).

https://www.thetoptens.com/best-david-bowie-albums/ (“Low” at 3rd place).


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A música pop perfeita parte 2: The Dream Academy - same (1985).

O trio se formou em 85 buscando um som diferenciado com instrumentos pouco utilizados no pop de então.
Produziram 3 álbuns de estúdio, sendo que este foi seu trabalho mais significativo tendo gerado o single de sucesso "Life in a Northern Town", que foi composto em homenagem a ninguém menos que o saudoso Nick Drake.
Atingiu a vigésima posição na parada Billboard 200 (US). Sucesso de crítica - não tanto de público - o álbum merece uma audição cuidadosa, por ter elementos não convencionais na música popular/rock.


David Gilmour produziu todas as faixas deste álbum (com exceção de "The Love Parade"), tendo inclusive tocado nas faixas "Bound to Be" e "The Party". Peter Buck (REM) também toca guitarra na faixa ". Após o fim da banda, Laird-Clowes trabalhou com Gilmour nas letras do álbum "The Division Bell" do Floyd.

Seguem minhas impressões, tanto com relação à letras quanto à sonoridade.

1. "Life in a Northern Town"
Espirituosa, com um chorus poderoso, mas não está explícita a homenagem a Drake.
Se sustenta nos teclados e o cÕro, mas se constrói de a pouco. Nostálgica, com uma melodia que gruda no ouvinte.

2. "The Edge of Forever"
Faz um contraponto entre a idade do menino e do adulto na letra, com um belo solo
de sax. Igualmente nostálgica. A harmonia possui uma levada típica anos 80 - principalmente quanto ao timbre dos
teclados. Podia muito bem estar em qualquer trilha sonora teenage dos anos 80.

3. "(Johnny) New Light"
Fala sobre o progresso. Linha marcante de arranjo vocal. O violão faz um trabalho interessante como se possível
uma antítese sonora das diferenças temporais que tornaram os campos, cidades. Termina num fade interessante entre violão
e teclados.

4. "In Places on the Run"
Belíssimo arranjo! Uma grande balada que conta das possibilidades de um sonho, mas não foi nada. ("Nós corremos
em campos coloridos...lugares em fuga").Ponto alto do disco!

5. "This World"
Uma narrativa para "todos os solitários mal compreendidos, vivendo neste mundo e chegando a lugar algum". Um pop mais convencional, numa linha á la Aztec Camera de Roddy Frame. Três personagens e suas vidas arriscadas e vazias. É sobre os amigos de Nick tornarem-se junkies.
Morrissey fez escola e Clowes foi um bom aluno.


6. "Bound to Be"
Grande intro, porém, uma letra simples falando de como um casal se completa no outro. Excelente trabalho vocal. Arranjo harmônico de arena.

7. "Moving On"
Marcante no álbum,com intro de guitarra precisa, o arranjo explode lindo ao longo da canção permeando a letra
de refrão pegajoso. Terminada a parte vocal, a banda mostra do que é capaz com um elegante instrumental. Me lembrei
de composições da fase final do Style Council. "E o que começou como uma aposta de independência, terminou numa
arma".
 
8. "The Love Parade"
O carro chefe do disco. Refrão pegajoso e um pop poderoso! Aí se vê a influência do DA em trabalhos posteriores como o do Lake Heartbeat - que não tiveram projeção. Citação à The Mamas and the Papas ao final? Vale o disco.

9. "The Party"
Noto influência dos Bee Gees anos 60. Peter Buck (R.E.M.) toca guitarra junto à Gilmour e o DA cita "Life in a Northern
 Town" - primeira faixa.

10. "One Dream"
O disco encerra com esta linda balada.Ao som de trompete e violão - do tipo que Paul Weller faria.
Grande final!

Interessante matéria com a banda neste link: http://www.beatrix.pro.br/mofo/academy.htm
Recomendo este álbum para todos os que apreciam um grande trabalho pop. Até a próxima!

Crédito das fotos: 1(coleção particular), 2(site w.ww.allmusic.com), 3(site www.en.wikipedia.org).

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A música pop perfeita parte1: EBTG - Baby, the stars shine bright (1986).


Depois de longo hiato, eis me aqui de novo para falar sobre um dos álbuns pop perfeitos em minha modesta opinião. Mesmo quem não entende inglês, ou não curte tanto o estilo vai render-se a este disco. Impossível não sentir uma ponta de nostalgia, uma saudade de um lugar, de alguém, de momentos, refletir sobre a complexidade do amor ouvindo esta dádiva sonora...



A dupla Everything But The Girl (formada pelo casal Ben Watt e Tracey Thorn) estava em seu terceiro trabalho, após ter iniciado o movimento “new bossa” junto a outros nomes como Sade e Matt Bianco em seu primeiro álbum e depois do rock-pop do segundo disco. Aqui estamos. Influenciados por gênios como Burt Bacharach, decidiram pegar suas composições e, com arranjos belíssimos de Ben para orquestra, direcionaram este álbum de 1986. Ah, ele foi gravado no mítico Abbey Road de Londres.

Tracey – cuja voz é bastante peculiar e bem superior à contemporâneas suas como Debbie Harry ou Chrissie Hynde - está no seu auge como cantora. E Ben, um guitarrista econômicamente  genial e de voz bem colocada, idem como composer. As composições têm em sua maioria temas machistas de casal, desilusão amorosa...mas super bem costurados pelos refrões ganchudos de ambos como letristas. “Dont leave me behind” é – apesar do título – bem alegre e o videoclipe/música tocou muito à época nas danceterias do Rio de Janeiro com Tracey apresentando um visual comportado - ao contrário do visual punk do ano anterior com "When all´s well"... O tema remete ao estrelato e como isso pode destruir uma relação - o mesmo tema da letra de ”A country mile”. 
“Come on home” também foi lançada em single, é arrebatadora do ponto de vista harmônico e com a figura feminina implorando a volta do homem ao lar...algo bem recorrente como tema geral desta obra. ”A Country Mile” (de novo esta) e “Careless” surgem magníficas aos ouvidos, tratando de entrega total ao ser amado. “Little Hitler” fala de pessoas comuns com personalidades fortes e que tendem a se tornar monstros, sem apontar ninguém em particular, apesar do crítico musical William Ruhlmann ter notado conotações realmente político-anti-fascistas na letra. Bem atual, digamos assim - ou não poderia se aplicar a Donald Trump e seu discurso equivocado? 


"Don't Let the Teardrops Rust Your Shining Heart" segue a tradição de baladas americanas e "Come Hell or High Water" traz um arranjo no estilo country. “Sugar Finney” é um dos pontos altos, rezando a lenda ter sido escrita com um olhar em Marilyn Monroe (“...a América é livre, barata e fácil...”) e todas as tentações que levaram à destruição do mito platinado. Um refrão matador e um arranjo de sopros à la banda Vitória Régia de Tim Maia e...pronto! Já cola nos ouvidos. Outra canção de outro mundo é “Cross my heart”, uma ode à entrega cega a um grande amor – mesmo que este te faça sofrer e te paralise as vontades. Uma canção super bem construída, sem palavras.

O site de música Pitchfork.com considerou este álbum o melhor dentre os 4 primeiros da banda, dando uma nota de 7.2 por ocasião do relançamento de seu catálogo no mercado. Críticas do público normalmente abraçam este álbum com no mínimo 4 estrelas...

Um disco que ouço há 30 anos (!) desde que o comprei logo após ter saído no Brasil e que até hoje considero uma obra-prima – visto que todas as canções são da dupla. Para quem só conhecia o duo pelo mega-sucesso “Missing” – onde eles flertaram em cheio com as pistas de dança – fica a dica de um dos mais belos trabalhos feitos na música pop inglesa no período pós punk. Delicie-se.

Fotos: sites wikipedia.org (capa) e www.thenational.ae (banda).
Texto: Alvaro Az.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Munich - garimpando em terras germânicas.

Após um hiato, volto aqui para falar de minha recente passagem pela capital da Bavária, onde tirei uma tarde para compras de vinil na belíssima Munique. Optei por 3 delas, porém, há várias outras espalhadas pela imensa cidade -  - tanto de material usado quanto de novidades ou especialidades musicais. Não vou tecer detalhes de como chegar a cada uma delas, até porque depende de qual setor da cidade você vai ficar hospedado. E também porque há uma certa complexidade envolvendo metrô, ônibus e trens. Munich é enorme! Há alguns sites que falam mais especificamente destas lojas, dentre os quais os sites https://www.yelp.com.br/search?cflt=vinyl_records&find_loc=Munique%2C+Bayern
e o www.bestvinyl.de e que contam com a localização, avaliação e sites das lojas. Boa pesquisa...


- SCHALLPLATTENZENTRALE -  (Lindwurmstrasse 209, 80337 Munich): 
Esta é "a loja" se você quiser apenas vinil, em grande quantidade e ótimos preços. Saí de lá com 5 LPs – os quais listo aqui – a apenas EURO 5.99 cada um. Uma bagatela, levando-se em conta que quatro deles não saíram no Brasil, ou, se saíram, custam hoje o olho da cara. Uma loja sem luxo, apertada pela quantidade de material, mas vale cada minuto de seu tempo. Vários estilos para todos os gostos. 


Não espere porém, bistrô com café, poltrona para sentar, discos lacrados e nem muito menos reedições.  Apenas o velho e bom garimpo de usados...mãos à busca! Eis os itens que agreguei à minha coleção:

REM – Reckoning (1984);
Ultravox – Vienna (1980);
Randy Newman – Sail away (1972);
OMD – Dazzle ships (1983);
Faiground attraction – Ay fond kiss (1990).

- MONO RECORDS -  (Haidhausen - Breisacher Str. 21, 81667 Munich):
 

Esta foi uma decepção! Muito material lacrado novo, porém a loja não consegue se destacar por nenhum nicho específico...nem 70, nem 80, nem tanto Indie assim...Há uma parte interessante de trilhas sonoras em vinil que fará a alegria dos aficcionados, e uma ampla variedade de cds usados – este sim o mote da loja. Também dvds (inclusive duplos) a um ótimo preço. Nada mais a destacar, fui embora de mãos vazias. Ah, não espere tratamento exemplar por parte do dono...

 - BEST RECORDS -  Theresienstrasse in Schwabing (Theresienstrasse 46, 80333 München):

Este é o verdadeiro sebo musical. Muita variedade de LPs usados, cds, livros, e outras coisas mais. Você provavelmente pode perder o dia inteiro nesta loja. O forte deles é material dos anos 70. Hard, heavy, psicodelia...mas se encontra material de cantores, de outras nacionalidades, enfim. Vale a visita, apesar de que eu mesmo não levei nada pois os preços são salgados mesmo para LPs comuns (em média EURO 15.00).



É isso, pessoal. Munich como cidade para compras musicais é muito dez, pois a Alemanha possui, no quesito de produção de vinil, uma qualidade bem considerável (e superior à nossa, claro). Além de ser um dos 3 maiores pólos de consumo musical da Europa. Fui!

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Visita à loja RECORDistori (RJ).

Conheci a loja carioca que inaugurou suas atividades em Janeiro/2017 na Rua Alcindo Guanabara 17/1201, bem pertinho do Teatro Municipal e Teatro Rival. O dono, Willis, e seu ajudante, ambos me deixaram bem à vontade e me auxiliaram na garimpagem o que certamente já ditou a atenção dispensada aos garimpeiros...




O acervo da loja é muito bom e grande, contando com todos os gêneros musicais e alguns itens importados também. Todos os gêneros organizados por ordem alfabética, limpos e com plásticos.

A decoração da loja impressiona: Tanto posters tradicionais emoldurados, quanto capas de vinil importadas também na moldura, montagens de fotos na madeira feitas pelo próprio Willis quanto cartazes dão um ar muito aconchegante ao espaço. A loja conta com venda de jogos, cds, revistas de época - como edições da famosa Rolling Stone americana - e dvs também.
Quanto aos preços, em média, os nacionais de artistas brasileiros a R$ 30,00 e os de grupos estrangeiros a R$ 50,00. Quanto aos importados, varia muito como não podia deixar de ser.



Optei por um item que buscava há muito: "Hora de lutar", de Geraldo Vandré. Embalado numa sacolinha de pano prá lá de simpática que certamente irei levar de volta para futuras aquisições!

Sem dúvida alguma uma loja que veio para ficar!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Unknown pleasures - Joy division (1979).


                Nunca fui muito fã de Joy Division. Sempre achei a banda monótona, prá baixo, Ian Curtis um cantor de segunda, músicas lúgubres. Sempre tentei entender o porquê de tanta admiração pelo nome da banda. Mas quem disse que não amadurecemos a opinião? Algumas impressões da banda me fizeram mudar e respeitar mais o Joy recentemente...como por exemplo:
                a) Eles retrataram como ninguém a Manchester dos anos 80 e a opressão que recaía no proletariado da época e toda uma década de dureza que viria sob o governo de Margareth Tatcher;

                b) Ian Curtis curtia The Doors, mas, para mim, ele foi mais poeta. Morrison tinha letras muito chapadas, hippies mesmo – e  muitas delas ficaram obsoletas dentro da era 60´s. O Joy é mais atemporal, pouca coisa soa descartável no lirismo de Curtis;
                c) A cozinha influenciou toda a geração pós-punk dos anos 80, o que não é pouco. As temáticas sombrias e os timbres foram o estopim para o som gótico. A bateria industrial de Morris, as linhas de baixo inspiradas de Hook e a guitarra hipnotizante e seca de Sumner não existiam antes deles. Some-se a isso uma influência de Kraftwerk pra lá de positiva e o estrago estava feito - escola criada para 3 décadas de música pop;

                d) Os temas de solidão, introspecção, visões urbanas, símbolos de opressão de massas – como o nazismo – e forças demolidoras das grandes cidades terminaram por me conquistar. Poucas bandas conseguiram soar tão inovadoras em seu tempo, esta é que é a verdade.

                Acabei por me ater às impressões das letras para escrever este review, já que muito se sabe da arte da capa – que acabou virando um ícone pop - ,da sonoridade e da história da banda. Comprei o álbum influenciado pelos depoimentos do documentário da banda de 2007 (essencial) e pelo mistério que acompanhou a banda, muitos esclarecidos recentemente pelas publicações de Deborah Curtis e outros escritores. E saí atrás das letras do álbum de estréia, pois são raras as edições deste álbum que contenham as ditas cujas.

                Day of The Lords me remete ao nazismo, mas também pode ser a perda da inocência da juventude, jogos juvenis carregados de malícia. She´s lost control fala de um fato real, ocorrido quando Curtis testemunhou uma mulher “tendo um piti” nervoso num serviço público e que o marcou muito. Disorder pode ser a trilha definitiva de sua cidade-símbolo da revolução industrial, cheia de imagens (...“no décimo andar, pelas  escadarias abaixo, é uma terra de ninguém”). 



                Desilusão com a vida e trabalho, marca registrada do cantor presente em Candidate  (“...vivendo sob suas regras, é tudo o que sabemos”) como também Shadowplay (...”eu deixei eles usarem você para seus próprios fins”) e Insight (“...mas eu não me importo mais, perdi a vontade de querer mais.” ou “nós perdemos nosso tempo”). Sombras de um passado e da infância aparecem nesta última(“...eu me lembro quando éramos jovens”). A interpretação de “New dawn fades” é um pouco mais difícil, parece relatar a experiências pessoais de Ian. Estas são algumas de minhas impressões sobre este grandioso álbum. Não estão todas as canções, mas espero ter atiçado a curiosidade de quem quer conhecer um pouco mais a banda. Saudações!

crédito das fotos: Wikipédia.


ENGLISH VERSION
I've never been a big fan of Joy Division. I always thought the band monotonous, down, Ian Curtis a second singer, lugubrious songs. I've always tried to understand why so much admiration for the band's name. But who's to say one cannot change his mind? Some impressions of the band made me change and respect more the Joy name recently ... as for example:
a) They portrayed the Manchester of the 80´s better than any band and the oppression that rested in the proletariat through a whole decade of hardness that would come under the government of Margaret Thatcher;
b) Ian Curtis was into The Doors, but, to me, the first was more poet. Morrison was very high, into hippies lyrics– and many of his poetry became obsolete and attached to 60´s. Joy is more timeless, very little sounds disposable in Curtis´s poems;
c) The whole post-punk generation bass-drums was influenced by them, which is not a little point. Dark themes and timbres were the fuse for the Gothic sound. The industrial drums by Morris, the Hook-inspired bass lines and the mesmerizing, dry guitar by Sumner did not exist before them. Add to that an influence of Kraftwerk and the damage was done-school created for 3 decades of pop music;
d) Themes of solitude, introspection, urban visions, symbols of mass oppression – like nazism-and shattering forces of large cities conquered me. Few bands have managed to sound so innovative in their time, this is the truth.
I stick to the impressions of the letters to write this review, since so much is known of the cover art – which turned out to be a pop icon, the sound and the band's history. I bought the album influenced by statements from the band's 2007 documentary (essential) and the mystery that accompanied the band, many enlightened recently by Deborah Curtis publications and other writers. And I run out for some lyrics from this debut album, as rare are the editions which contain the written.
Day of The Lords brings me back to the Nazis, but also can be the loss of the innocence of youth, youth games filled with malice. She's lost control  speaks of an actual fact, occurred when Curtis witnessed a woman having a nervous breakdown in public service – it surely had an impact on him. Disorder can be the final track of his city-symbol of the industrial revolution, full of images (... "on the 10th floor, the stairs below, is a no man's land"). Disillusionment with life and work, the singer's trademark present in Candidate ("... living under its rules, is all we know") as well as in Shadowplay (... "I let them use you for their own ends") and Insight ("... but I don't care any more, I've lost the will to want more." or "we lost our time"). Shadows of the past and childhood appear in this last ("I remember when we were young"). The interpretation of "New dawn fades" is a little more difficult, apparently reporting the personal experiences of Ian. These are some of my impressions of this great album. Not all of the songs, but I hope to have woken the curiosity of those who want to learn a little more. Greetings!
photo credit: Wikipedia.