sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Low - David Bowie (1977).

Taí. O melhor álbum de Bowie (o preferido do cantor) na primeira prensagem brasileira de 1977 pela RCA. Coisa linda (NM). Eu tinha me desfeito de minha cópia em cd – erro quase imperdoável – mas agora me redimo ao adquirir o LP. Isto não é bem uma resenha, mas um bate-papo sobre este grande disco.


Me lembro de não “sacar” muito este disco quando o escutei pela primeira vez. Não soava pop, não soava rock, não soava a Bowie. Soava a música de elevador, descartável, difícil. Num certo sentido é isso mesmo, pois gerou um único single. Com o tempo e minha mudança de gosto musical (passei a curtir Kraftwerk, bandas instrumentais [ou quase] do selo 4AD, trilhas) este álbum passa a fazer sentido para os meus ouvidos agora mais ecléticos.

Confesso que o que ajudou a forjar minha simpatia por “Low” foi a íntima relação entre o som e a cortina de ferro que durou até a queda do muro de Berlim em 89.  O álbum teve dois locais de concepção: O Château d'Hérouville na França e o Hansa Studios em Berlim - a cidade que dividiu o mundo em dois durante quase 3 décadas (Bowie passou a morar no bairro de Kreuzberg em companhia de Iggy Pop para desintoxicar-se). Tenho uma queda pelo Leste Europeu socialista, escuro, frio, enigmático, sei lá...  Uma sensação parecida eu tive quando escutei a discografia do Ultravox - que também me remeteu à mesma concepção. Totalitarismo.

Sem ser fã de Bowie, me identifico com este disco por justamente sair de seu estilo. O disco parece uma bagunça sonora, mas consegue uma identidade pela participação de Brian Eno – que também teve papel fundamental na mudança sonora do U2 -e a ousadia forçada numa fase do cantor mergulhado no vício e buscando se apartar da realidade ocidental. No lado um destaco “Always crashing in the same car” e “A new career in a new town”. O lado dois...bem....é uma coisa. Eu diria que fica entre os 5 lados fundamentais da segunda metade da década, musicalmente em importância. É um marco na música pop, pois quebrou com tudo o que se esperava do Camaleão até aquele ponto de sua carreira.  Sua sonoridade abriu as portas para o Techno-pop, o gótico - influenciando bandas como o Joy Division (cujo primeiro nome Warsaw foi retirado da faixa “Warsawa”) e todo o pós-punk.

A capa – sempre um must em se tratando de Bowie, remete ao filme de 1976 “O homem que caiu na Terra”, estrelando o próprio – e que vale a pena ser visto!

Nos últimos anos, duas edições reavivaram este disco: As edições “Low Live” com registros ao vivo das canções e “Low sessions” com as sessões de gravação do mesmo. Também foi editado no Brasil o livro homônimo do escritor Hugo Wilcken pela editora Cobogó (o qual pretendo adquirir) que fala tudo o que se precisa saber sobre a feitura do álbum.
Enfim, um disco para escutar num dia nublado, introspectivo. Para sair deste mundo louco. Bowie vive...

Créditos das fotos: 1- coleção particular / 2- site rockontro.org / 3- internet. [Quem souber o crédito correto por favor informe]. Segue uma relação de sites que falam sobre o álbum com algumas referências (vale a pena a leitura):

https://www.revistacontinente.com.br/secoes/resenha/livro-do-disco---low---de-david-bowie-





https://rockontro.org/2016/06/02/disco-nota-11-low-david-bowie/ 

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A música pop perfeita parte 2: The Dream Academy - same (1985).

O trio se formou em 85 buscando um som diferenciado com instrumentos pouco utilizados no pop de então.
Produziram 3 álbuns de estúdio, sendo que este foi seu trabalho mais significativo tendo gerado o single de sucesso "Life in a Northern Town", que foi composto em homenagem a ninguém menos que o saudoso Nick Drake.
Atingiu a vigésima posição na parada Billboard 200 (US). Sucesso de crítica - não tanto de público - o álbum merece uma audição cuidadosa, por ter elementos não convencionais na música popular/rock.


David Gilmour produziu todas as faixas deste álbum (com exceção de "The Love Parade"), tendo inclusive tocado nas faixas "Bound to Be" e "The Party". Peter Buck (REM) também toca guitarra na faixa ". Após o fim da banda, Laird-Clowes trabalhou com Gilmour nas letras do álbum "The Division Bell" do Floyd.

Seguem minhas impressões, tanto com relação à letras quanto à sonoridade.

1. "Life in a Northern Town"
Espirituosa, com um chorus poderoso, mas não está explícita a homenagem a Drake.
Se sustenta nos teclados e o cÕro, mas se constrói de a pouco. Nostálgica, com uma melodia que gruda no ouvinte.

2. "The Edge of Forever"
Faz um contraponto entre a idade do menino e do adulto na letra, com um belo solo
de sax. Igualmente nostálgica. A harmonia possui uma levada típica anos 80 - principalmente quanto ao timbre dos
teclados. Podia muito bem estar em qualquer trilha sonora teenage dos anos 80.

3. "(Johnny) New Light"
Fala sobre o progresso. Linha marcante de arranjo vocal. O violão faz um trabalho interessante como se possível
uma antítese sonora das diferenças temporais que tornaram os campos, cidades. Termina num fade interessante entre violão
e teclados.

4. "In Places on the Run"
Belíssimo arranjo! Uma grande balada que conta das possibilidades de um sonho, mas não foi nada. ("Nós corremos
em campos coloridos...lugares em fuga").Ponto alto do disco!

5. "This World"
Uma narrativa para "todos os solitários mal compreendidos, vivendo neste mundo e chegando a lugar algum". Um pop mais convencional, numa linha á la Aztec Camera de Roddy Frame. Três personagens e suas vidas arriscadas e vazias. É sobre os amigos de Nick tornarem-se junkies.
Morrissey fez escola e Clowes foi um bom aluno.


6. "Bound to Be"
Grande intro, porém, uma letra simples falando de como um casal se completa no outro. Excelente trabalho vocal. Arranjo harmônico de arena.

7. "Moving On"
Marcante no álbum,com intro de guitarra precisa, o arranjo explode lindo ao longo da canção permeando a letra
de refrão pegajoso. Terminada a parte vocal, a banda mostra do que é capaz com um elegante instrumental. Me lembrei
de composições da fase final do Style Council. "E o que começou como uma aposta de independência, terminou numa
arma".
 
8. "The Love Parade"
O carro chefe do disco. Refrão pegajoso e um pop poderoso! Aí se vê a influência do DA em trabalhos posteriores como o do Lake Heartbeat - que não tiveram projeção. Citação à The Mamas and the Papas ao final? Vale o disco.

9. "The Party"
Noto influência dos Bee Gees anos 60. Peter Buck (R.E.M.) toca guitarra junto à Gilmour e o DA cita "Life in a Northern
 Town" - primeira faixa.

10. "One Dream"
O disco encerra com esta linda balada.Ao som de trompete e violão - do tipo que Paul Weller faria.
Grande final!

Interessante matéria com a banda neste link: http://www.beatrix.pro.br/mofo/academy.htm
Recomendo este álbum para todos os que apreciam um grande trabalho pop. Até a próxima!

Crédito das fotos: 1(coleção particular), 2(site w.ww.allmusic.com), 3(site www.en.wikipedia.org).